A utopia do capitalismo democrático é possível?

Para leitora que assina Lolita Sala sim, é possível; em comentário ao artigo "Por um capitalismo democrático" de autoria do jornalista Davis Sena Filho, publicado com exclusividade pelo blog.

Leia o que diz a leitora:

Ok, o dar direito aos bancos de criar meios de pagamento, e alem disso de cobrar aluguel sobre esses meios de pagamento surgidos do nada é dar a eles um dinheiroduto que draga a liquidez do pais, que transfere renda desenfreadamente de quem nao tem para quem nao precisa e issso ocorre o tempo todo e só quem paga é o consumidor porque os juros das companhias acabam embutidos nos preços de venda e os juros dos governos tambem, quem paga é o consumidor porque os impostos das empresas tambem acabam embutidos no preço de venda!

Precisamos sem duvida de instituições nas quais as poupanças individuais sejam reunidas e disponibilizadas para investimentos maiores.

É só para isto que deve haver bancos. Só. E é razoável que haja uma taxa administrativa para cobrir o funcionamento da instituicao.

Mas o aluguel do dinheiro é uma doença do nosso sistema. Uma doença considerada pecado e proibida em varias culturas ao longo da historia.

E o conceito injustificável dos "juros sobre juros" faz com que nas empresas as pessoas se desarvorem em tentativas cada vez mais insustentaveis de obter receitas crescentes,
lucros crescentes, margens crescentes!! explorando suicidamente sem qualquer limite a natureza, os clientes e a si proprios, os funcionarios.

Emitir meio circulante, é obrigacao do governo. O monopólio da producao e do aluguel de dinheiro precisa deixar de ser atividade para lucro astronomico de uns poucos privilegiados para enriquecimento individual privado. E voltar a ser serviço público essencial prestado para o bom funcionamento das trocas, das inovacoes e dos investimentos.

E como se nao bastassem os juros que concentram renda em niveis campeões mundiais do Brasil, ainda as tarifas!! é obceno!

Como é possível que sejamos tão trouxas? que assistamos ao big brother, enquanto o dinheiro do setor produtivo está sendo drenado interruptamente deste jeito? O povo nao exerce sua obrigacao de fiscalizar minimamente o governo, como ocorre nos países que funcionam decentemente. O governo está sendo exercido (por varios canais) pelos concentradores de riqueza. Democracia nessas condicoes é uma ficção.

E, só mais uma observação "capitalismo democrático" é tão lindo como "sorvete quente". Se é capitalismo, os meios de produção pertencem aos capitalistas que pagam ao trabalhador um salário inferior ao valor proporcional da sua producao, e fica com a diferenca, que recebe o nome de mais-valia. O trabalhador nao participa da decisao sobre quem fica com qual parte do resultado da producao. Pra ser capitalismo precisa necessariamente ser antidemocrático. Se o trabalhador participar indiretamente das decisoes via partido político, numa economia centralmente planejada pelo estado aí seria algum tipo de socialismo. Se participar diretamente das decisoes aí é auto-gestao, economia solidária, é outra coisa. No capitalismo, nem ficamos sabendo o valor da nossa produção, é aquela velha situacao de coerção e submissao que todos conhecemos e estamos aceitando por ignorancia e comodismo. Aqui "quem pode manda e quem tem "juízo" obedece".

Tanto juízo está nos matando, está colocando nossos irmaos miseráveis para cheirar cola, ou na prostituição, no tráfico, todas essas maravilhas que decorrem da injusta divisao do dinheiro (do comprovante de producao que dá direito ao consumo). Permitimos que umas poucas pessoas fabriquem e aluguem dinheiro (direito ao consumo) sem dar nada em troca. O resultado do trabalho vai em quantidades enormes para os individuos do setor financeiro, e uma segunda parte enorme do fruto do trabalho vai para as pessoas que sao colocadas em funcoes intelectualizadas. E a grande massa tem que repartir entre bilhoes de pessoas as sobras da lambança da elite.

"A crisis is a terrible thing to waste" diz Hazel Henderson. Podemos aproveitar para desmascarar a verdadeira raiz do problema, ou podemos ficar tentando remendar o dinheiroduto que enriquece os poucos que entenderam o nome do jogo e se aproveitam dele.

Lolita Sala, mãe, dona de casa, educadora, economista, tradutora, desenhista, cinéfila, anti-monocultura.

2 comentários:

Alan Lemos disse...

Muito lúcido e sginificativo o que a moça lembrou sobre apenas o governo ter atributo de "emitir papel-moeda" - claro, títulos não são papel-moeda, mas desdobram-se em riqueza.

É revoltante ver que uma crise na economia especulativa afeta a economia real, mas a verdade é que todos necessitamos de bancos e bancos gostam de participar de negociatas especulativas.

Em um momento de crise, como este, precisamos de um porto seguro, de alguma instituição financeira que não foi tão promíscua nas empreitadas especulatórias: até de instituições que tenham um grande lastro por trás (o Estado).

Pergunta agora se os liberais querem a não-influência do Estado... depois tem gente reclamando da carta branca que o Banco do Brasil recebeu para comprar ações de banco - benefício duplo: "garantir" uma demanda aos papéis de banco e fazer com que o governo adquira patrimônio barato.

Val-André Mutran disse...

Está acontecendo hoje em São Paulo a reunião do G-20 que deve tratar de alternativas para a saída da encrenca que os banqueiros americanos e seus sócios aprotaram para o mundo.

Vamos aguardar no que vai dar.

Mas, olha Alan, dinheiro não tem ideologia, pátria ou credo. Há de se colocar um garrote nessa sangria administrada por banqueiros safados lá, aqui e acolá.