Não precisamos de proselitismo senhor presidente

A coluna Brasil S/A, assinada por Antônio Machado no Correio Braziliense, destaca com precisão a necessária ação ante o desatado proselitismo político adotado pelo presidente Luis Inácio Lula da Silva ao tecer comentário de mau gosto e recheados de dispensável excesso de confiança na política econômica.

Parlamentares da oposição ao governo estão paulatinamente subindo o tom das críticas a essa política econômica, notadamente as providências necessárias de modo a preservar empregos e juros minimamente aceitáveis. Abaixo a íntegra da análise do jornalista.

Menos histerismo

Relatórios de bancos prevêem queda da economia, mas não a tragédia vista no resto do mundo

Relatórios maçudos de bancos de investimentos, cheios de análises e projeções, são, nestes tempos de incerteza, peças mais sóbrias a falar do tumulto econômico que castiga as economias em todo mundo que as divertidas parolagens do presidente Lula e as manchetes que constróem a narrativa da crise já instalada no país.

A conclusão de todos, dada as circunstâncias, não é ruim, embora o adjetivo mereça qualificação. O que se projeta para a economia à frente é péssimo, se comparada à situação atual. Ela marca o ponto de inflexão do mais longo ciclo de crescimento econômico do país desde a década de 70. Mas diante da razia no resto do mundo, como destaca relatório da OCDE, organização de pesquisas das economias industrializadas, em sintonia com a expectativa de bancos globais, o Brasil, ao menos entre os países emergentes, é o melhor situado.

A economia passará um tempo em dieta, mas perderá menos peso que as demais, e em 2010 já poderá estar fora da zona de perigo. Não há risco do “sífu”, conforme outra gafe de Lula. Inadvertidamente, ele revelou seu pessimismo, embora quisesse transmitir confiança.

Como fala muito, se traiu. Estivesse mais preparado, liderando as mudanças inevitáveis impelidas pela crise, suas doses diárias de proselitismo poderiam mostrar um país melhor do que sugere a visão convencional, apesar da inépcia do que valoriza: o papel do Estado no país, mais gastalhão que empreendedor e provedor eficaz.

Dois cartapácios saídos do forno, ambos de bancos suíços dos mais atingidos pela crise financeira global, UBS e Credit Suisse, até por isso merecem leitura atenta. Em resumo, eles projetam a perda de pique da economia em 2009, saindo das alturas de um crescimento de 5,7% este ano, segundo o CS, ou 5,2%, para o UBS, reerguendo-se já em 2010. O CS prevê expansão de 1,3% em 2009 e 3,5% em 2010; o UBS, 2,8%, com inflação de 5,5%, vindo de 6,3% este ano.

Com 150 páginas e muita objetividade, o estudo do CS, escrito no Brasil, não é róseo nem funesto, só realista. O lembrete está no sumário: a “incerteza sobre a construção dos cenários é a maior em muitos anos tanto na economia global quanto na doméstica”. Depende da magnitude dos acontecimentos ainda em curso nos países centrais o que será da economia brasileira. Por ora, a economia reage bem.

A China é aqui mesmo
Anúncios de crédito escasso, cortes de investimentos, demissões, refletem a adaptação das empresas à recessão global, que esvazia as exportações e o fluxo de capitais. À perda da renda externa se soma a provocada pelo efeito contracionista do aumento dos juros pelo Banco Central a partir de abril, que deverá virar de lado com o refluxo da inflação. Outros países não têm tal flexibilidade.

Na fotografia, tem-se uma tragédia nos EUA, Europa — nem a China, esperança de retomada da economia global a partir do aquecimento de seu mercado interno, escapou. E pode vir a agravar a crise, se confirmar a tendência de retorno da desvalorização de sua moeda.

A esperança é Obama
A expectativa é o que fará o governo de Barack Obama. Se vier com uma política de recuperação movida apenas por medidas monetárias e fiscais, conforme o que tem feito países como Inglaterra, França, Japão, China, Espanha, vai-se ter mais do mesmo. O crescimento voltará aos EUA, mas pequeno, desfibrado, sem força para pôr para rodar a locomotiva da demanda global. Não é isso o que ele sugere.

Obama defendeu em campanha transformações radicais associadas às medidas tradicionais anticíclicas mediante tecnologias de ruptura, como novos combustíveis e aprofundamento da economia digital.

Recessão passageira
Tais questões deverão repercutir no modo de produção atual. Aqui, pode inviabilizar a exploração de petróleo do pré-sal se o socorro à indústria automobilística de Detroit envolver o desenvolvimento de motores elétricos. O próprio etanol estaria ameaçado. A defesa contra tecnologias emergentes é a mesma frente à débâcle econômica global: sustentar o nível de consumo e o ciclo de investimentos em infra-estrutura até o limite de financiamento das contas externas.

Não será impossível. Segundo o Credit Suisse, o déficit em contas correntes não crescerá em 2009 e, ao contrário de crises passadas, o consumo do governo não precisa ser contido, o que tende a elevar sua contribuição ao crescimento. Há risco de recessão, mas curta e sem os estragos de antes. Com calma, dá para agüentar o tranco.

Verdade inconveniente
A maior ameaça enfrentada pelo país, fora a que vem de fora, será a que resultar de equívocos, tipo tomar encalhe de carros como um acidente, não algo estrutural. O setor fechará o ano com estoques acima de 300 mil carros, contra 135 mil, em média, de 2004 a 2007. O que explica isso? Falta de crédito? Receio do consumidor? Não se exclua a hipótese de que, como no Plano Real, as montadoras tenham superestimado a demanda, após tanto crédito a pessoas sem renda e promessas de investimentos para um mercado que nunca existiu (cinco milhões de produção anual, segundo os planos de expansão). Fazer o que, se subsidiar carro não é papel do crédito público? O que será da economia envolve respostas a questões mal formuladas como esta.

Um comentário:

enildo disse...

Dane-se a tal “liturgia do cargo”, muito conveniente para "os do andar de cima" e como diria nosso Herói do Sertão, bem que e oposição deveria “enfiar o rabo no meio das pernas” pois foi exatamente a defesa dos DEMO-Tucanos das "verdades neoliberais" e a sustentação política desse discurso do Mercado que estão nas raízes de nosso naco da crise.

Sabemos muito bem que quem surfa nessa onda é essa oposição do quanto pior melhor. Acusando o petismo de ter inventado essa receita pensam que não sabemos que a mídia está bem ensaiada e reverbera seus gritos estridentes com muito mais eficiência do que quando os arautos eram vermelhos.

A receita se repete com regularidade espantosa: Capa da Veja no Sábado, primeira página nos jornalões de Domingo e matéria no Fantástico. Discurso na Tribuna do Senado na Segunda e Terça, CPI na Sexta, e finalmente em 30 dias, será que dá Impeachment?

Ante os recordes de popularidade obtidos pelo Presidente e a incapacidade de fabricar crises que o atinjam de morte são tomados pelo desespero de tentar botar fogo no circo com todo mundo dentro. É isso que concluímos ao ouvir por exemplo, D. Miriam Leitão, Sardengerg, Lúcia Hipólito, Fernando Rodrigues, Clóvis Rossi, Eliane Catanhêde e outros numerários do Sistema das “Seven Big Famiglias” com suas doses diárias de pessimismo irracional. Logo eles que sempre foram fieis repetidores do mantra do Consenso de Washington.

A insensatez dessa gente, que tem no pseudo-jornalismo, pseudo econômico seus aliados de plantão beira o cinismo. Para apagar o incêndio, a todo momento chamam os incendiários, que na defesa do Neoliberalismo e do cassino financeiro proclamaram afoitamente o Fim da História e o triunfo da "New Economy".

Seria bom que percebessem que não adianta buscar auxílio nos ícones neoliberais. A ortodoxia delinqüente e criminosa de Smith-Hayeck-Friedman incubadas nos laboratórios das cobaias humanas sacrificadas no Terceiro Mundo e recheadas de falsa ciência econômica muito bem vinda aos templários de Wall Street, nos levaram para o abismo e como remédio nos apresentam veneno.

É hora de chamar Lord Keynes e ver o que tem a dizer nosso velho amigo Marx, antes que quem pague a fatura sejam os Trabalhadores e suas famílias.

Na verdade, seria muito bom se o Meirelles jogasse a toalha e pedisse para sair, pois a cada medida do Banco Central fica claro que quem mais ganha é a Turma da Bufunfa beneficiária dos juros da Selic e dos Swaps Reversos.

Muitos que confiaram nele cegamente, agora estão vendo que seu caminho poderá nos levar a queda no precipício como na parábola bíblica.

Tardiamente estamos percebendo que o mago na verdade é feiticeiro que quer transformar Lula no Bobo da Corte.