Cotas racias: estupro antropológico

Diálogo de dois amigos sobre as cotas raciais.

Prezado amigo Abraão, (este nome é fictício, mas a história é real)

Outro dia, em mensagem ao nosso conterrâneo que está plantado lá no Paraná há décadas, mas que jamais esquecerá nossas raízes culturais, referindo-se à tentativa artificiosa de separar nossa sociedade em extratos étnicos, leia-se, cotas raciais, você, com o equilíbrio que é marca de sua personalidade, assim se expressou: “Sei não, amigo. Não estou ainda convencido de que as pessoas passem a ter algum privilégio em função da cor da pele. Eu, e pelo menos 02 dos meus 03 filhos, temos todas as características fenotípicas de afrodescendentes, e nenhuma identidade cultural com qualquer grupo que expresse nossa origem africana. É justo, então, que tenhamos qualquer privilégio social, político ou  econômico por esta minha origem? E qualquer tentativa que se faça para que eu passe a assumir/consumir esta cultura considero um ‘estupro antropológico’.”

Considero que o estupro dessa insensatez é tão abrangente que tenho dúvidas se diante da transcendência que assume e da feição teratológica que incorpora, não ultrapassa o âmbito da antropologia, ainda que isso absurdo pareça. O aturdimento que essa coisa provoca ultrapassa o nível do consciente, pois tamanho é o efeito da manipulação do inconsciente que cada vez mais nos assedia. Hoje, falando-lhe ao telefone, tratei-o como pertencente à etnia afrodescendente. Veja que violência hedionda! Onde já se viu tamanho estupro! A única etnia que conhecíamos, na nossa pequenina e fascinante Areia, era a etnia que nos envolvia sob o manto de uma cultura onde prevaleciam as amizades e o respeito, independente do extrato social que nos dava origem. As peladas vespertinas e domingueiras do campo dos Touquinhos que o digam. Altaneiro ali reinava o espírito da inclusão onde estavam irmanados o irreverente Nêgo Ivan [êpa, cuidado com essa expressão racista], Peu Perazzo, Geraldo Barriquinha, Eduardo Soares, Naldinho Queiroz, Mário Piquete, Zé Bodinho, Braz Perazzo a frente do Jaguar Fotebol Clube e mais tantas outras personagens de suaves e doces lembranças. É essa etnia que nós conhecemos: a etnia de unidade cultural que abrange nossas origens, nossas cores de pele, nossos brincadeiras infantis, nossa farras e putas da juventude, nossas birras pessoais, enfim o conjunto de nossas crenças, lendas e costumes. Existia uma estratificação social marcada pelo aspecto econômico, é verdade, mas essa realidade factual jamais permitiu que se vislumbrasse o aspecto raça para nos distinguir, para nos separar. Não tenho notícia de monstruosidade desse tipo, pelo menos em nossa geração, já que somos sexagenários.  Agora, manipulado por ideias exóticas interpelei-o, num diálogo amigável e fraterno, como integrante da etnia afrodescendente. Isso não é apenas um estupro. Não: estupro é pouco, isso é uma tragédia antropológica; é corrupção cultural; é uma monstruosidade fruto do que insistem em impor nas nossas consciências e aos poucos estão conseguindo: separar-nos, enxergarmo-nos como diferentes. Está aí a prova! Isso é sinistro, é assustador e temos, pois, que reagir a essa aberração!

Acicatemos, pois, os congressistas para que fiquem bem despertos e cumpram sua missão com a impavidez e o destemor necessário. Não podem nem devem sentir-se ameaçados diante de labéus, do assédio, do patrulhamento, de ameaças de opróbrio nem de torpezas várias gestadas pelas mentes pervertidas dos fascistas de plantão. Precisa decidir com a serenidade e equilíbrio que o tema exige, para que não seja aberto, no seio da sociedade brasileira, um fosso sem volta. Depois que a semente do ódio for semeada aos quatro ventos nesse país imenso, será impossível extirpá-la. É só assistir vídeos exibindo o dia-a-dia das prisões americanas para se constatar aonde chegou o ódio que impera naquela sociedade, fruto de insensatez semelhante a essa que querem transplantar para o Brasil. Naquelas prisões as etnias negra, branca e a dos xicanos (mexicanos e latinos) literalmente se matam; bata, para isso, que qualquer integrante se desgrude do seu grupo. Eles em bandos que nem animais na selva africana que, movidas pelo instinto, procedem assim para escaparem do ataque dos seus predadores. A diferença é que aqueles animais matam para sobreviver nas regras da selvageria, mas nas prisões americanas eles se matam movidos pelo ódio que desfila impregnado na cor da pele.

O autoritarismo é terrível porque cerceia, proíbe, impede, usurpa os direitos e a liberdade, mas o fascismo supera-o na vileza, portanto, vai além: ele constrange, ele força a barra, ele assedia, ele impõe. Este não tem lado, pois sem cerimônia rodopia da direita para a esquerda num balé macabro que já foi muito bem encenado pelas figuras caricatas e trágicas de Mussolini e Stalin. Também não tem credo, que tenha dito Caifás braço direito do sogrão Anás corrupto como poucos e que, à época do Cristo, comandava o Sinédrio e o Templo já havia quarenta anos e, com o poder do seu cetro medonho, distinguia pessoas pelo abismo cavado a partir de suas origens e outros filtros que discriminava quem era saduceu, fariseu, ímpio e gentio e, o pior, que era hebreu (filho de Deus) e o resto. O envolvimento de clérigos nessa polêmica não acrescenta nenhuma aura arcangélica nem confere maior credibilidade ao debate, muito pelo contrário. E, por último, o fascismo também não tem cor, é só observar o que acontece em Dafur onde grupos rivais se matam atiçadas por interesses políticos que inoculam o veneno das diferenças de línguas, religiões e origens tribais para azeitar aquele odioso extermínio fratricida. Finalmente, o Brasil não está livre do fascismo, pois este é uma doença que infecta a alma e o caráter e independe de lados políticos imaginários, da cor da pele das pessoas bem como do credo que anunciam, mas, uma coisa é certa: estão à espreita e também estão agindo tanto de forma explícita com ameaças, ou de forma velada disfarçados pelo biombo deplorável dos discursos manipuladores tão em voga na atualidade.

Antônio Gondim  
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"Toma cuidado com o homem de um só livro"
São Tomás de Aquino.

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