A caixa preta do Senado e seus abusos

Senado acumula mais de 300 atos secretos para criar cargos e nomear

O Estado de S. Paulo

Parentes de políticos ganharam cargos sem que seus nomes fossem divulgados em publicações oficiais

Depois da revelação feita no mês passado por um estudo da Fundação Getúlio Vargas de que o Senado tinha mais 600 funções comissionadas e cargos com gratificação, descobre-se agora outra caixa-preta na Casa. Atos administrativos secretos foram usados para nomear parentes, amigos, criar cargos e aumentar salários. Levantamento feito por técnicos do Senado nos últimos 45 dias, a pedido da Primeira-Secretaria, detectou cerca de 300 decisões que não foram publicadas, muitas adotadas há mais de 10 anos. Essas medidas entraram em vigor, gerando gastos desnecessários e suspeitas da existência de funcionários fantasmas.

Entenda o escândalo dos cargos e benesses do Senado
O Estado teve acesso a esses atos secretos, que, após o início da investigação interna, começaram a sair como "boletins suplementares", inseridos nos respectivos meses a que se referem, com data da época. Na relação, aparecem as nomeações da ex-mulher do deputado Eliseu Padilha (PMDB-RS) na Advocacia-Geral e da ex-presidente da Câmara Municipal de Murici, cidade cujo prefeito é filho do hoje líder do PMDB, Renan Calheiros (AL).

Também secreto é o ato que exonerou um neto do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), então lotado no gabinete de Epitácio Cafeteira (PTB-MA). A exoneração, pelo modo secreto, ocorreu para não dar visibilidade à existência de um parente não-concursado de Sarney nos quadros da instituição no momento em que o Senado se via obrigado a cumprir a súmula antinepotismo do Supremo Tribunal Federal (STF).

Na pesquisa dos técnicos do Senado, surgem ainda medidas impopulares, como a que estende assistência vitalícia odontológica e psicológica a marido ou mulher de ex-parlamentares. Os boletins secretos revelam também que mais um filho e um irmão do ex-diretor João Carlos Zoghbi (Recursos Humanos) trabalharam no Senado, além dos outros sete parentes já conhecidos.

Esses dois, João Carlos Zoghbi Júnior e Luis Fernando Zoghbi, eram lotados na Diretoria-Geral, então comandada por Agaciel Maia - exonerado em março após a acusação de ocultar a propriedade da casa onde mora em Brasília. Para abrir espaço para essas contratações, um dos atos secretos, de 24 de dezembro de 2004, cria 25 cargos na Diretoria-Geral.

Ex-presidente da Câmara Municipal de Murici (AL), Marlene Galdino foi lotada na Diretoria-Geral até o ano passado com um salário de R$ 5 mil. Renan Calheiros Filho é o prefeito da cidade. O Conselho Editorial do Senado, órgão criado por Sarney, foi usado, por exemplo, para abrigar, entre agosto de 2007 e outubro de 2008, Luiz Cantuária Barreto (PTB), ex-presidente da Assembleia do Amapá, com salário de R$ 7,1 mil.

BOLETIM
O Senado publica diariamente um boletim acessado pelos servidores com as nomeações e mudanças administrativas internas. Ao assumir a Primeira-Secretaria em fevereiro, o senador Heráclito Fortes (DEM-PI) foi avisado de que muitas decisões não saíram da gaveta de Agaciel - por tratarem de medidas questionáveis, a maioria para agradar ao grupo do ex-diretor e também do alto comando político. Entre eles, estão Sarney, Renan e demais ex-presidentes, como Jader Barbalho (PMDB-PA) e Antonio Carlos Magalhães (DEM-BA), morto em 2007.

Enquanto as decisões públicas saem num mesmo documento diariamente, a maioria das sigilosas tem tratamento único, sem se misturar com outras medidas. A existência desse tipo de procedimento surpreendeu até os auditores da FGV, responsáveis por uma reforma administrativa no Senado. "O próprio regulamento dispõe que muitas das competências não descritas deveriam ou poderiam ser especificadas por atos da comissão diretora e do diretor-geral. No entanto, a equipe de consultores da FGV não teve acesso a esses atos, e alguns deles nem sequer foram publicados", dizem os auditores.

A descoberta desses boletins obrigou o primeiro-secretário a oficializar uma comissão para cuidar do assunto. Em 28 de maio, Heráclito nomeou três servidores para cuidar oficialmente do tema e entregar uma conclusão até sexta-feira.

"Não tenho compromisso com o erro", afirma o senador. "Qualquer irregularidade que chegue ao meu conhecimento, eu tomo providência. Não existirão mais atos secretos no Senado. A não ser aqueles de caráter estritamente pessoal."

Sarney afirmou ontem ao Estado desconhecer a existência desses atos secretos. Ele disse apoiar a divulgação desse tipo de documento. "É claro que eu apoio. A Constituição manda que todos os atos públicos sejam divulgados." Ele ressaltou ainda que, como parlamentar, cuida mais da parte política do que da administrativa.

Procurado, por meio de sua assessoria, Renan não se pronunciou. Eliseu Padilha confirmou que a ex-mulher, Maria Eliane, trabalhou no Senado de março de 2006 a dezembro de 2008. Disse que foi requisitada para dar pareceres jurídicos. "Deveriam ter publicado isso (não em ato secreto). Essa pergunta deve ser feita ao Senado."

OS ATOS SECRETOS
Nomeação e exoneração de Maria Eliane Padilha, mulher do deputado Eliseu Padilha (PMDB-RS), da Advocacia-Geral;
Criação de 25 cargos de confiança de R$ 2,2 mil na Diretoria-Geral;
Nomeação de João Carlos Zoghbi Júnior, filho do ex-diretor de Recursos Humanos, para trabalhar na Diretoria-Geral. O irmão do diretor, Luis Fernando, também foi nomeado por ato secreto para o mesmo órgão;
Nomeação e exoneração de Marlene Galdino, ex-presidente da Câmara Municipal de Murici na Diretoria-Geral. O município alagoano tem como prefeito um filho do senador Renan Calheiros (PMDB);
Nomeação e exoneração de Luiz Cantuária, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Amapá (Estado que José Sarney representa), para trabalhar no Conselho Editorial do Senado, órgão criado por Sarney;
Aumento de gratificação para os chefes de gabinetes de secretarias para igualar aos de gabinetes de senador;
Autorização para servidores parcelarem em até 99 parcelas os créditos consignados;
Assistência médica e odontológica para cônjuge de ex-senador e
Nomeação de aliados do senador Efraim Morais na Paraíba para trabalhar no Interlegis

Neto de Sarney foi beneficiado

Rodrigo Rangel, BRASÍLIA

Rapaz recebeu salário de secretário parlamentar durante 18 meses
João Fernando Michels Gonçalves Sarney é um jovem de 22 anos que está perto de terminar o curso de administração numa faculdade particular de Brasília. Apesar da pouca idade e de ainda não ter diploma, ele carrega no currículo, além do sobrenome de peso, um emprego de prestígio. Por um ano e oito meses, João ocupou formalmente um dos postos mais altos da estrutura funcional do Senado. Foi secretário parlamentar, função que dá direito a salário mensal de R$ 7,6 mil. A história agora se tornou conhecida graças à revelação dos atos secretos.

É o próprio João Fernando quem revela as credenciais que lhe garantiram o bom emprego. Procurado ontem pelo Estado, respondeu sem rodeios à pergunta sobre sua relação com o presidente do Senado. "Sou neto do senador Sarney, meu pai é o Fernando", disse. Ele se referia a Fernando José Macieira Sarney, filho mais velho do senador e encarregado de tocar os negócios da família. A mãe de João, Rosângela Terezinha Michels Gonçalves, candidata a Miss Brasília em 1980, é ex-namorada de Fernando.

O rapaz foi nomeado assessor do Senado em 1º de fevereiro de 2007. Quem assinou a nomeação foi o atual diretor-geral da casa, Alexandre Gazineo, na época adjunto do então todo-poderoso Agaciel Maia. João deveria trabalhar no gabinete do senador Epitácio Cafeteira, do PTB do Maranhão, terra dos Sarney. Esteve lotado no Senado até 3 de outubro do ano passado, quando um novo ato secreto, também assinado por Gazineo, formalizou sua saída.

Indagado sobre suas atividades no gabinete, João Fernando respondeu que "fazia de tudo um pouco". Antes, porém, perguntou: "Como você soube que eu trabalhava lá?" Ele garante que comparecia ao trabalho de segunda a sexta-feira. O Estado telefonou ontem para o gabinete de Cafeteira. A funcionária que atendeu a ligação disse não conhecer nenhum João Fernando que tenha trabalhado ali.

João Fernando diz que teve de deixar o emprego porque "estava sem tempo". Em seguida, completou: "Foi quando começou aquela decisão (sic) sobre nepotismo." A saída coincide com a crise instalada no Senado após o Supremo Tribunal Federal proibir a contratação de parentes nos três Poderes.

7 comentários:

Anônimo disse...

O MPF tem que requerer com urgência a devolução dos recursos públicos recebidos de forma ilícita por esses escroques protegidos por essa cambada de políticos nojentos, bem como requerer a punição dos responsáveis pelos tais atos secretos.
A imprensa está fazendo o seu papel, só falta o povo saber votar e banir da vida pública os políticos sabidamente desonestos.

Sylvia disse...

Não entendo quando um ex-presidente o Brasil, um ex-governador do Marahão, um atual presidente do senado vem me dizer que "essa nomeação não é um ato estritamente pessoal" e não tem compromisso com o erro?"Isso é homem publico de respeito? Quando é que o povo do Maranhão vai aprender a votar? Pq ele não deu a esse neto um cargo na empresas da familia? Tirar din din que o povo coloca em todos os niveis de governo começando pelo municipl, etadual e finalizando no federal.
Direito Publico é bem dferente de direito privado. Não é a toa que fez conchavo com Renan e temos senador que não queria julgar este ultimo.O que os demais do senado estão fazendo que não pedem a cassação destes nobres e excelencias? Aonde vai parar essa conivencia?Essa hipocrisia? A arte de se fazer politica em um regime democratico é a arte de negociar pelo povo, do povo e com o povo e naõ só com seus aceclas, puxas-saco e familiares. Ou fazer algo
para que um outro fique lhe devendo um "favorzinho"? Obrigado a imprensa escrita e falada, qem sabe assim consigamos votar melhor!

Anônimo disse...

O blog é sério. Valeu !!! A informação é de suma importância para assim termos idéia do que acontece nessa área, em Brasília. Brasileiros tomem jeito e escolham melhor.... isso é urgente.

Amaro Jorge Bento de Souza disse...

Canalhas, ladrões, safados, desafio a quem quer que seja a dizer que estou errado.

Anônimo disse...

Não tem geito mesmo!!!quanto mais tem mais ROUBAM!
O pior, é que quanto mais pobre é o estado destes facínaras mais eles ROUBAM!!
Por isso que o norte/nordeste estão sempre na pior!!
Não é porque os estados são pobres,é porque os seus representantes na mioria esmagadora são LADRÕES!!
Cadê os senadores loucos por CPI?? ah... ja sei ,não sabiam!!!
Manuel-Santo André

Anônimo disse...

Val, eu pergunto que democracia é esta, mas é vergonhoso saber que estes individuos estão no poder com a nossa concordância, dada nas urnas os quais seriam para nos representar, mas veja o que é feito falcatruas, enganos, hipocrisias- quando dizem que lutam por nós. É hora de pensarmos um pouco em nós também. Não acha? e de uma vez por todas sermos responsáveis com o nosso voto para fezermos escolhas sérias.

Val-André Mutran disse...

Anônimo das 5:15 PM, entendo perfeitamente sua indignação e compartilho consigo a minha como cidadão.
O instrumento mais eficaz para combater esse horror ainda é a democracia.
Temos que unidos trabalhar para cobrar uma melhor educação de nossa população para que possamos, um dia, apear do poder a péssima qualidade de nossa representação parlamentar.
Obrigado por sua participação e volte sempre.