As eleições municipais, que dispersaram as forças partidárias na capital fluminense, tiveram um efeito diferente sobre outras grandes cidades do estado, que protagonizam um verdadeiro mata-mata político, muitas delas podendo definir o novo prefeito no primeiro turno, em 5 de outubro.
Enquanto na capital os 4,5 milhões de eleitores serão disputados de forma fragmentada, com pelo menos oito candidatos, nas nove cidades que reúnem os maiores colégios eleitorais no estado — São Gonçalo, Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Niterói, São João do Meriti, Campos, Belford Roxo, Petrópolis e Volta Redonda, um total de 2,6 milhões de eleitores —, os pleitos serão polarizados, com dois candidatos aglutinando apoios e separando grupos políticos rivais.
A base do governo Lula se pulverizou, ficando de lados opostos em muitas cidades e tornando quase impossível para o presidente subir em algum palanque. Um problema sério, já que o PT pode perder domínios em Niterói e Nova Iguaçu e, segundo projeções de cientistas políticos, ficar sem eleger cabeça de chapa nos 10 maiores parques eleitorais do estado.
“Lula é o grande eleitor do Rio, mas está quase impedido de fazer campanha porque sua base se dividiu. Como ele vai subir no palanque do PT em Niterói se o adversário é o PDT? Ou em Nova Iguaçu, se o rival é do PMDB? A contradição é que a base aliada é tão ampla que paralisou a ação política do presidente”, analisa o cientista político Geraldo Tadeu Monteiro, presidente do Instituto Brasileiro de Pesquisa Social (IBPS). Na capital, diz ele, a fragmentação era esperada, porque os partidos querem marcar posição. Assim, a sucessão do prefeito César Maia colocou no páreo, entre os principais candidatos, o senador Marcelo Crivella (PRB), Jandira Feghali (PCdoB), Eduardo Paes (PMDB), Alessandro Molon (PT), Paulo Ramos (PDT) Fernando Gabeira (PV), Solange Amaral (DEM) e Chico Alencar (PSol) — os cinco primeiros da base aliada.
Como nenhum candidato dá sinais de passar dos 30% de intenções de voto, o segundo turno é tido como certo. Nas outras cidades, pesa mais a força de oligarquias locais, sobrenomes como Zito, Silveira, Bornier e Garotinho. Segundo levantamentos do IBPS, Niterói, Duque de Caxias e Volta Redonda podem ter seus pleitos definidos já no primeiro turno.
Niterói revive o fenômeno político do ex-prefeito Jorge Roberto Silveira (PDT), que com sua frente ampla tem boas chances de bater Rodrigo Neves (PT), o candidato do atual prefeito, Godofredo Pinto (PT). Em Caxias, maior município da Baixada Fluminense, nem todos os investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento estão conseguindo alavancar a reeleição do prefeito Washington Reis (PMDB) contra o “rei da Baixada” José Camilo Zito (PSDB). “O prefeito está meio desesperado, trazendo gente de Brasília toda semana para cá para tentar virar o jogo, mas a chance de eu ganhar em primeiro turno é de 98%”, afirma Zito, presidente regional do PSDB.
Em Volta Redonda, o fenômeno atende pelo nome de Antônio Francisco Neto (PMDB), que enfrenta com boas chances de sucesso a deputada federal Cida Diogo (PT). Neto, que já foi prefeito de Volta Redonda por oito anos (1997-2004), foi presidente do Detran no governo Sérgio Cabral, onde pavimentou a sua volta. “Estamos trabalhando para que não haja segundo turno”, admite. Ernesto Braga, presidente do PT em Volta Redonda e marido da deputada Cida Diogo, gostaria muito de ver Lula por lá, mas sabe que é improvável. “Com o palanque dividido é mais difícil.”
Macumba Em São Gonçalo, a atual prefeita, Aparecida Panisset (PDT), aliou-se ao DEM e mais cinco partidos para enfrentar a deputada estadual Graça Matos (PMDB). No município com maior concentração de evangélicos do estado, equivalente à metade da população, vale tudo para tirar pontos do rival. Em 2004, quando as duas se enfrentaram, Graça perdeu votos preciosos quando um panfleto anônimo, fartamente distribuído, acusava-a de ser “macumbeira”. “Acho que nem o Lula, nem o Cabral vão aparecer por aqui. Os interesses políticos locais são muito mais fortes que qualquer costura política nacional”, explica Henrique Porto, presidente municipal do PDT.
Em Nova Iguaçu, Lula bem que gostaria de ajudar seu pupilo, o prefeito Lindberg Farias (PT), que tem até os Democratas como aliados, mas Cabral quer colocar em seu lugar o deputado federal e ex-prefeito Nelson Bornier (PMDB). Em São João de Meriti, o prefeito Uzias Mocotó (PSC), desistiu da reeleição “por motivos pessoais” e deixou a peleja dividida entre o deputado estadual Marcelo Simão (PHS) e o deputado federal Sandro Matos (PR).
Em Belford Roxo, o PT tem uma de suas poucas chances de vitória encabeçando uma chapa com o deputado estadual Alcides Rolim (PT) enfrentando Sula do Carmo (PMDB), candidata da atual prefeita, Maria Lúcia dos Santos. Em Petrópolis, o prefeito Rubens Bomtempo (PSB) quer fazer seu sucessor, o deputado estadual Ronaldo Medeiros (PSB) contra a ambição de Nelson Sabrá (PRB).
Tem também, claro, Campos. Ali, o clã Garotinho tenta manter seus domínios, pelo menos dentro de casa, lançando a ex-governadora Rosinha Garotinho (PMDB), que teve duas más notícias. Primeiro, o rompimento do DEM, que iria indicar o vice, e agora uma briga indigesta com o vereador Nelson Nahim, irmão de Garotinho, que queria ter sido o candidato. Do outro lado, o ex-prefeito Arnaldo Vianna (PDT), que espera a adesão do PT. Na salada de alianças municipais, a lógica política federal não existe. O DEM, por exemplo, tem candidato solo na capital, apóia o PDT em São Gonçalo e Niterói, o PSDB em Caxias, o PT em Nova Iguaçu e Volta Redonda, o PHS em Petrópolis e acaba de romper com o PMDB em Campos. “É característica das eleições municipais ter um caráter menos ideológico. Se fizer esse exercício com os demais partidos grandes, terá o mesmo resultado”, explica o maior cacique do partido, o prefeito Cesar Maia. (CB)