As ONGs e as ‘Jóias da família’

por Nilder Costa

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28/jun/07 (AER) – Está causando ondas de choque a decisão da agência americana de inteligência (CIA) de disponibilizar na internet centenas de documentos secretos da agência. Os documentos incluem a série conhecida como ‘Jóias da Família’ que detalha alguns dos piores abusos e atividades ilegais cometidos pela agência entre os anos 50 e 70. Um dos aspectos mais bombásticos das ‘Jóias’ é a revelação que a CIA utilizou – e certamente ainda utiliza – outras entidades do governo americano para realizar as suas operações de inteligência e contra-inteligência. Dentre essas destaca-se a USAID, que deveria se envergonhar – e não se orgulhar - de apresentar-se como a "primeira organização de assistência estrangeira livre de funções políticas e militares". [1]

Mesmo considerando-se que a USAID prestou e presta relevante ajuda humanitária, o fato de ser utilizada como fachada para operações ‘políticas e militares’, projeções de poder ou defesa de interesses do governo americano coloca sob suspeição todo e qualquer projeto por ela patrocinado.

Alguns desses projetos, é verdade, dispensam a confirmação tornada ‘oficial’ do envolvimento da agência em operações como as acima descritas. Esse é o caso, por exemplo, do programa ‘Iniciativa para a Conservação da Bacia Amazônica’ (ABCI, em sua sigla inglesa), que vem sendo implantada pela agência a alguns anos. O programa inclui o estabelecimento de ‘consórcios’ de ONGs para desenvolver cinco subprogramas. Em maio passado, este Alerta publicou o memorando ‘USAID planeja a ocupação da Amazônia’, de autoria do jornalista Lorenzo Carrasco, denunciando que o ABCI foi concebido e orientado para a ocupação efetiva de áreas críticas da Amazônia, onde a presença soberana dos Estados nacionais que compartilham a região é precária.

O memorando teve grande repercussão e provavelmente influiu para a dura resposta do governo brasileiro que, por intermédio do Itamaraty, exigiu que a Usaid suspendesse o programa no Brasil. Essa aberta ingerência do governo americano na Amazônia brasileira sob o disfarce de uma suposta ‘proteção ambiental’ foi motivo de intensas discussões nos meios castrenses, como o secretário de Política, Estratégia e Relações Internacionais do Ministério da Defesa, general Maynard Santa Rosa, ao afirmar que ‘algumas ONGs, muito facilmente e de maneira barata, são utilizadas como instrumentos de captação de informações por organismos de inteligência estrangeiros, atuam na espionagem. Sabe-se disso porque os serviços secretos do Reino Unido e dos Estados Unidos têm trabalhado na área. Temos informações seguras sobre isso’. [2]

Um evidente desdobramento dessa preocupação foi a realização do seminário "Forças Armadas na defesa da Amazônia", realizado entre os dias 18 a 22 passados sob o patrocínio da Fundação Alexandre Gusmão (Itamaraty). Entre os conferencistas, o General-de-Brigada Eduardo Dias Villas Bôas (Cmt EsAO), o Contra-Almirante Guilherme Mattos de Abreu (Cmt 2ª Div Esqd) e o Cel Av Carlos Augusto Oliveira. Nos informa o veterano jornalista Mauro Santayana sobre o seminário:[3]

Os vários depoimentos conduziram à conclusão dramática: faltam-nos aviões em números suficientes; não há veículo de combate nos milhões de quilômetros de rio e na imensidão das selvas; para patrulhar outros milhões de quilômetros, no mar territorial, só temos dois submarinos, e a munição de que dispomos só da para três ou quatro dias de disparos. Não há como adestrar os recrutas para a luta contra um possível inimigo, porque não temos como alimentá-los devidamente. Só podemos contar com a extensão territorial e o patriotismo das Forças Armadas e dos cidadãos brasileiros, para organizar e exercer a resistência, se a isso formos levados...

È fácil – e tem sido freqüente – a tática de desqualificar as advertências de setores da opinião pública, entre eles as de alguns jornalistas, ao tachá-las de manifestações de paranóia. Assim têm agido os ingênuos, desde que os gregos presentearam os troianos com um imenso cavalo de madeira, recheado de soldados.

Temos que realizar todos os esforços e nos submeter aos sacrifícios necessários, a fim por em prática um plano nacional de ocupação da Amazônia pelos brasileiros, e fortalecer a capacidade militar de defesa do território. Para isso, é necessário seguir o exemplo de nacionalidade econômico da China, da Índia e da Rússia.



Por dentro da ABCI
Uma análise, mesmo superficial, da montagem da ABCI mostra como o governo americano constrói uma rede de ONGs altamente especializadas para satisfazer interesses políticos e estratégicos dos EUA. Agências como a Usaid funcionam como um ‘buffer’ entre as ONGs e o Departamento de Estado que pode, assim, alegar desconhecimento sobre atividades que influenciam diretamente os assuntos internos de um determinado país.

No caso da ABCI, a USAID contratou o International Resources Group (IRG) para montar e gerenciar todo o programa. O IRG, fundado em 1978 e baseado em Washington, tem mais de 600 contratos com o governo americano em 90 países para gerenciar complexos projetos ambientais, energéticos e de reconstrução. Em 2003, por exemplo, a USAID contratou o IRG para atuar na reconstrução do Iraque. Por sua vez, o IRG sub-contratou a Crown Agents, conhecida empresa formada por ex-agentes de inteligência e contra-inteligência do antigo Império Britânico. De fato, os dirigentes do IRG possuem fortes vínculos com a estrutura do governo americano. Seu presidente, Philip Palmedo, é um ex-dirigente de alto escalão do Departamento de Energia; David Joslyn, vice-presidente, foi diretor do programa ‘Alimentos para a Paz’ da USAID; Doug Clark, vice-presidente corporativo, trabalhou na USAID por 27 anos; Benjamin Farrah, outro vice-presidente, é um es-funcionário do Departamento de Defesa dos EUA.

O ‘homem-chave’ do IRG para a ABCI é o biólogo americano Dr. Anthony Anderson, que liderou a equipe de avaliação da Usaid para o projeto cujo conceito básico foi estabelecido no documento ‘Conservação da Biodiversidade na Bacia Amazônica: Contexto e Oportunidades para a USAID’. Dr. Anderson, ex-pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi, possui 33 anos de experiência profissional na região amazônica e já trabalhou para a Fundação Ford, para o Banco Mundial e para o WWF. Além disso, Dr. Anderson aparece como um dos membros fundadores do Instituto Socioambiental, o ISA, junto com o atual secretário-executivo e ‘homem forte’ do Ministério do Meio Ambienta, João Paulo Capobianco.

Atualmente, Dr. Anderson é o Diretor do Secretariado da ABCI como funcionário do IRG.


A Usaid e a criação do Serviço Florestal Brasileiro
Considerada como um primeiro passo para a internacionalização da Amazônia, a criação do polêmico Serviço Florestal Brasileiro (SFB) teve ingerência direta da Usaid. Em agosto de 2004, o jornal O Globo revelou que técnicos do Ministério do Meio Ambiente viajaram meio mundo para pesquisar experiências semelhantes. Pelo menos um dessas viagens, feita à Austrália entre março e abril de 2004, foi organizada e patrocinada pela Usaid com dinheiro do Serviço Florestal Americano (USDA/FS). Relatório da viagem obtido pelo jornal aponta que quatro funcionários do governo brasileiro foram a New South Wales e que pelo menos dois tiveram as despesas custeadas pelos órgãos americanos, entre eles Tasso Azevedo, então diretor do Programa Nacional de Florestas e atual presidente do SFB. Também participaram da visita técnica representantes de ONGs que atuam na Amazônia. [4]

Na ocasião, até mesmo algumas ONGs ambientalistas criticaram o esquema de concessão de florestas à iniciativa privada que viam como um risco de o governo perder o controle sobre as áreas repassadas às empresas. ‘Estaríamos abrindo as portas para grandes grupos estrangeiros que devastaram matas da Indonésia e de países da África e depois saíram’, disse o ambientalista Flávio Garcia, do Movimento em Defesa da Amazônia.

Recorde-se que, em abril passado, Azevedo foi acusado de fazer proselitismo internacional colocando à venda boa parte da Floresta Amazônica. Azevedo é partidário da corrente internacional que impulsiona a perigosa idéia que a 'conservação' da Floresta Amazônica é tarefa de várias nações. Coerentemente, na 7ª Sessão do Fórum das Nações Unidas sobre Florestas (UNFF), realizada em abril passado em Nova York, Azevedo propôs que os países desenvolvidos ajudem o Brasil a preservar a Amazônia sugerindo que eles paguem uma espécie de estipêndio aos moradores da região para manter a floresta de pé. Sem surpresas, o acordo internacional proposto pelo representante brasileiro foi aprovado no Fórum e vai para a apreciação da Assembléia Geral da ONU. [5]


O Instituto Chico Mendes e a 'nova geometria' ambientalista
Como já analisado anteriormente por este Alerta, a ditatorial divisão do Ibama com a criação do Instituto Chico Mendes deve vista como uma espécie de adequação à nova geometria de 'governança mundial' que o Establishment anglo-americano tenta desenhar e onde fatores como o 'aquecimento global', 'proteção ambiental' e 'direitos humanos' aparecem como os principais ordenadores dos relacionamentos entre os países. Nesse esquema, a soberania das nações seria 'relativizada' e vai para o vinagre. [6]

Carente de recursos, o Instituto prosseguirá criando novas e imensas reservas ambientais sem pessoal e meios para um adequado gerenciamento e fiscalização das mesmas, como já ocorre atualmente. Em tal quadro, as portas estão abertas ao aporte de generosos recursos externos para que esse gerenciamento e fiscalização sejam ‘terceirizados’ a representantes de ONGs.


A ‘Pax Verde’
Como se percebe, a iniciativa da USAID ocorre nesse contexto de intenções ostensivas de interferência direta na Amazônia, que configura uma autêntica estratégia de guerra irregular, ou "guerra de quarta geração" (G4G), contra a soberania nacional do Brasil e seus vizinhos amazônicos.

O conceito de G4G, que vem sendo discutido entre certos círculos militares e estratégicos da América do Norte e da Europa, se refere a campanhas em que um Estado nacional se defronta com oponentes não-estatais, como organizações terroristas e/ou criminosas - ou, no caso brasileiro, ONGs contrárias ao desenvolvimento nacional. Assim sendo, não é exagero considerar que estão em curso na Amazônia ações de "quarta geração", nas quais os territórios não são conquistados no sentido militar clássico, mas têm neutralizado o seu pleno desenvolvimento socioeconômico e conseqüente povoamento, para, em uma fase posterior, serem eventualmente declarados como territórios sem "soberania efetiva". Estaríamos, portanto, às voltas com uma doutrina estratégica exógena, cuja denominação não poderia ser outra senão "Pax Verde".

Notas:
[1]Arquivo revela que CIA quis usar mafiosos para matar Fidel, Folha de São Paulo, 26/06/07
[2]Itamaraty pára ‘rolo compressor’ da USAID na Amazônia, Alerta Científico e Ambiental, 28/05/07
[3]A Soberania sobre a Amazônia, Jornal do Braisl, 24/06/07
[4]EUA pagaram viagem de funcionários, O Globo, 01/08/04
[5]SFB põe a Amazônia à venda no exterior, Alerta Científico e Ambiental, 26/04/07
[6]A USAID e a 'governança mundial' da Amazônia, Alerta Científico e Ambiental, 10/05/07


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Um comentário:

Ricardo Rayol disse...

Nada mais esclarecedor. Há um baita movimento para tomar conta da amazônia e ninguem faz nada que preste. E por que será que não me surpreendi?