MST amplia invasões

Movimento pretende mobilizar 1.500 famílias para integrar acampamentos em fazendas da Agropecuária Santa Bárbara no Sudeste do Pará. Proprietários dizem que irão à Justiça pedir a reintegração de posse

Ocupação da Fazenda Maria Bonita, em julho do ano passado: objetivo dos sem-terra é invadir 49 propriedades nos próximos três anos

A coordenação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Pará ameaça mobilizar 1.500 famílias para ampliar, até o próximo fim de semana, a invasão das três fazendas do grupo Agropecuária Santa Bárbara, que tem o banqueiro Daniel Dantas como um de seus sócios. O objetivo do movimento é transformar a ocupação das propriedades localizadas em municípios do Sudeste do Pará no maior acampamento de sem-terra do país. Até ontem, mais de 600 famílias tinham chegado ao local, inclusive com dezenas de crianças.

Na noite da última sexta-feira, os sem-terra invadiram as fazendas Espírito Santo, no município de Eldorado dos Carajás, e Cedro, em Marabá. A fazenda Maria Bonita, do mesmo grupo econômico, está ocupada, segundo a direção do movimento no estado, desde julho do ano passado. Ao todo, as três propriedades formam 32,2 mil hectares de pasto para a criação de gado de corte. Se o movimento conseguir mobilizar tanta gente, e a polícia que está no local permitir a entrada das famílias na área, este será um dos maiores acampamentos da história do movimento. Em 1995, o MST conseguiu mobilizar 3,2 mil famílias no acampamento em Eldorado dos Carajás, que terminou em tragédia, quando a PM matou 19 trabalhadores rurais durante uma passeata.

Os funcionários das fazendas Espírito Santo e Cedro disseram que sofreram ameaças durante as ocupações, o que foi negado pelo MST. Em nota, o grupo Santa Bárbara afirmou que vai pedir na Justiça a reintegração de posse sobre os imóveis e fez um protesto: “Esse ataque medido e deliberado contra a Santa Bárbara revela a fraqueza do Estado de direito no Brasil”. O grupo disse ainda que os invasores estão abatendo cabeças de gado para consumo e impedindo a saída de funcionários da casa-sede das propriedades.

A polícia do Pará investiga a responsabilidade dos coordenadores dos sem-terra e tenta localizar os líderes do movimento. O objetivo, segundo a assessoria da Secretaria de Segurança Pública, é identificar rapidamente os responsáveis pela invasão e avaliar quais os prejuízos causados na ocupação.

Exigências
Segundo Charles Trocate, coordenador nacional do MST, a escolha dos locais para as invasões recentes foi uma decisão estratégica. O movimento sabia das aquisições feitas pela Agropecuária Santa Bárbara e decidiu reapresentar antigas reivindicações — da época em que as propriedades pertenciam ao grupo Benedito Mutran. “Há uma barbárie social na região, com a concentração de terras e o desemprego. A reforma agrária é fundamental para resolver o problema”, disse Trocate.

De acordo com a direção do MST, o grupo Opportunity, de Daniel Dantas, já adquiriu 49 grandes fazendas em 11 municípios paraenses. Trocate revelou que é intenção do movimento invadir todas as fazendas do grupo nos próximos dois ou três anos. Outras organizações, como a Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar, também preparam ocupações.

Os sem-terra exigem que o governo federal providencie, nos próximos dias, o assentamento das famílias que invadiram as três fazendas e que o governo estadual não use a força policial para desalojar os trabalhadores. O MST também espera que o Judiciário não conceda a reintegração de posse dos imóveis, já que a transferência das fazendas do grupo Mutran para o Santa Bárbara está sendo questionada na Justiça pelo Instituto de Terras do Pará (Iterpa). Em decisão do dia 5 de janeiro, o juiz Libio de Moura, da Vara agrária de Marabá, acatou a ação civil pública do Iterpa e decidiu suspender o negócio entre os dois grupos empresariais.

Esse ataque medido e deliberado contra a Santa Bárbara revela a fraqueza do Estado de direito no Brasil

Grupo Santa Bárbara, em nota oficial

Há uma barbárie social na região, com a concentração de terras e o desemprego

Charles Trocate, coordenador nacional do MST

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