Terremoto no Haiti: Estudo previu catástrofe há seis anos


Seis anos antes do tremor que matou mais de 100 mil pessoas, um estudo descreveu a falha na zona caribenha e alertou sobre o risco de um abalo de grande dimensão

Os cientistas já suspeitavam que a Ilha Hispaniola — onde estão localizados o Haiti e a República Dominicana — poderia ser atingida por um terremoto de proporções inimagináveis. O alerta chegou a ser lançado durante a 18ª Conferência Geológica do Caribe, realizada em Santo Domingo, entre 24 e 28 de março de 2008. Cinco especialistas apresentaram o estudo, publicado em 2004 pela revista científica Journal of Geophysical Research, no qual descreviam uma falha geológica no lado sul da ilha como um “grande risco sísmico”. Foi exatamente a zona da falha conhecida como Enriquillo-Plantain Garden, na região sul da ilha, a responsável por uma das maiores tragédias da América Latina.

Em entrevista ao Correio, por e-mail, o israelense Uri ten Brink, sismólogo do US Geological Survey e coautor da pesquisa, admitiu que as características da falha indicavam que um tremor poderia ocorrer no local. “A placa tectônica move-se lentamente, e a interação acontece em um de seus limites ou bordas.

Ela se mexe com uma velocidade similar à do crescimento das unhas.

Enquanto nada parece ocorrer diariamente, após algumas centenas de anos você pode ter um acúmulo de vários metros de movimento. Quando as placas estão presas em seu limite, produz-se uma ruptura da falha durante o terremoto”, explica. O último registro de grande tremor na região data de 1770. Atingiu a Jamaica, matou 2 mil pessoas, provocou um tsunami e sucedeu outro abalo ocorrido antes da chegada dos espanhóis, no século 16.

Apesar de Uri reconhecer que os terremotos não ocorrem em intervalos de tempo exatos ou com uma mesma magnitude, ele diz ser possível estimar áreas de alto risco. “Existe um perigo mais elevado de ocorrer um terremoto próximo a falhas que acabaram de sofrer um tremor”, comenta. “É bem provável que as áreas a oeste e a leste do epicentro do tremor de terça-feira sofram rupturas algumas vezes, nas próximas décadas ou talvez em breve”, prevê. Ele afirma, porém, que abalos afetam periodicamente uma mesma falha e liberam o estresse construído pelo movimento das placas.

“O tremor de terça-feira foi transformante. Em outras palavras, os dois lados das falhas se moveram lateralmente. A sensação é como se a terra estivesse se deslocando para a esquerda”, descreve Uri. Esse tipo de tremor se dá apenas na parte mais rasa da crosta terrestre, até 15km de profundidade. Grosso modo, o fenômeno é comparado a um martelo atingindo uma rocha. Tremores mais profundos produzem uma deformação mais contínua e não causam terremotos violentos.

Métodos
Para avaliar o risco de abalos sísmicos, os cientistas dispõem de pelo menos seis métodos. O mapeamento detalhado do assoalho oceânico permite encontrar falhas e desmoronamentos submarinos capazes de gerar tsunamis.

Outro meio de detecção é a instalação de sismógrafos no fundo do mar e no continente. A instalação de receptores de posicionamento global por satélite (GPS) possibilita a medição do movimento da crosta terrestre. O mapeamento de falhas expostas sobre a superfície também pode indicar áreas vulneráveis.
 
Existem ainda as técnicas de abertura de valas cruzando as falhas geológicas, seguida pela avaliação de perturbações no solo, e a análise de registros históricos de terremotos. Segundo Uri, como não há maneiras de prevenir a ocorrência desse tipo de evento, o melhor a fazer é minimizar os danos. “A melhor forma é ter certeza de que os prédios têm segurança e que estruturas importantes, como gasodutos, portos, pontes e torres de celulares, são bem construídas”, aconselha.

É bem provável que as áreas a oeste e a leste do epicentro do tremor sofra rupturas novamente. Talvez, em breve
Uri ten Brink, sismólogo israelense

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